A SALVAÇÃO JAMAIS SE PERDE

                                                                                                                                                                                                                                           Pr. Edemar V. Silva

"O vencedor será assim vestido de vestiduras brancas, e de modo nenhum apagarei o seu nome do livro da vida; pelo contrário, confessarei o seu nome diante de meu Pai e diante dos seus anjos." Apoc 3:5

Os arminianos gostam de utilizar este texto para afirmar que o nome de pessoas salvas pode ser riscado do Livro da Vida. Este argumento contudo é vazio de conteúdo teológico, e não tem qualquer embasamento bíblico. É muito perigoso estabelecer doutrinas em cima de versículos isolados da Bíblia, sobretudo em se tratando de textos com conteúdo histórico e de cunho metafórico.

Conforme já ouvimos dizer anteriormente, não devemos extrair o texto do seu contexto. Usar o texto fora do contexto é mero pretexto!

Vamos, então, as nossas considerações:-

1. O versículo extraído faz parte da Carta à Igreja em Sardes, cujo conteúdo total compreende os versos 1 a 6 do Capítulo terceiro do Livro de Apocalipse;

2. Para melhor compreensão quanto à correta interpretação do texto, é necessário trazer aqui algumas informações gerais sobre o Livro do Apocalipse, como seguem:-

3. O Livro do Apocalipse foi originalmente enviado às sete comunidades cristãs localizadas na Ásia Menor ( atualmente Turquia ). Havia muito mais do que sete comunidades cristãs na Ásia Menor. Naquela mesma região, igrejas locais tinham sido fundadas nas localidades de Colossos (Col 1:2 e 2:1), Hierápolis (Col. 4:13, Trôade (Atos 20:5), e ainda Magnésia e Trales. Por quê então só sete cartas? Porque o número "sete" é um número místico! Símbolo da perfeição. É, na Bíblia, um número atribuído sempre a Deus. Foi usado propositalmente pelo vidente João diversas vezes neste Livro; assim temos: sete igrejas, sete selos, sete julgamentos por trombetas, sete personagens, sete visões dos adoradores do Cordeiro e da besta, sete juízos de taças, sete visões sobre a queda de Babilônia, sete visões de como Satanás será derrubado e como seu reino será destroçado.

4. Em todo o Livro, João emprega verdades místicas e simbólicas, ao invés de verdades físicas e literais. O meio de transmitir a verdade, dentro do misticismo, é o símbolo. Um símbolo pode ser válido, sem importar que por detrás dele tenha ou não algum acontecimento físico e literal. As parábolas de Jesus (pelo menos algumas delas) não tinham o intuito de relacionarem-se com qualquer acontecimento real; antes, eram "narrativas" sobre as verdades eternas, vividamente ilustradas.

5. Assim sendo, não se pode ler e /ou interpretar literalmente o Livro do Apocalipse. Há que se interpretar os diversos símbolos presentes, procurando decifrar os enigmas, e sobretudo, procurando entender o texto dentro do seu contexto bíblico e histórico. Tendo João recebido revelações de coisas tão solenes, sublimes e profundas, desejou expressar no seu livro tudo o que viu, da melhor forma possível para que houvesse a devida compreensão por parte das igrejas. Isto o levou a se utilizar de simbolismos e imagens tão em voga naquela época, como por exemplo: "gafanhotos" e "escorpiões" (cap. 9), "cavalos" (cap. 6), e, inclusive, "livros", especialmente o chamado "Livro da Vida".

6. Devemos levar em conta ainda que a Igreja do Senhor estava sendo terrivelmente perseguida durante o primeiro século, e início do segundo, e que o entendimento da igreja do primeiro século era o de que o fim estava próximo, ou seja, o "começo" do fim! Desta forma, este livro visava infundir "esperança" aos crentes que sofriam, e encorajá-los a prosseguir na caminhada, apesar das perseguições, relembrando-os sobre o "mundo eterno" que eventualmente seria estabelecido, ao passo que os reinos humanos, caracterizados pela cobiça e pelo poder, seriam reduzidos a nada. Visava contrabalançar o temor e o desespero que, naturalmente, tomou conta da igreja cristã, e que, talvez, tenha conduzido alguns a apostasia.

 

7. A metáfora. Nas antigas cidades havia um registro de seus habitantes. Ter o próprio nome em um daqueles registros, era prova de cidadania, com os seus respectivos privilégios... Ter o próprio nome "apagado" equivalia a perder a cidadania e os seus privilégios. Os nomes dos que morriam eram riscados... João recorre então a figura do "livro", comum naquela época, para demonstrar à igreja que, em relação ao reino de Deus, e à futura morada dos santos, não é assim, jamais os seus nomes serão "riscados" do Livro da Vida. O objetivo era realmente encorajá-los, e João o faz usando uma linguagem positiva, de fé, de esperança na e de certeza quanto à salvação, para que eles permanecessem firmes e constantes, sabendo que jamais perderiam a sua cidadania no reino dos céus!

8. Veja o que o Senhor diz: "...de modo nenhum apagarei o seu nome do livro da vida..." Ou seja, de nenhuma forma, em nenhuma hipótese isto acontecerá! E, para que não pairasse qualquer dúvida em seus corações, o Senhor prossegue enfatizando: "...pelo contrário, confessarei o seu nome diante de meu Pai e diante dos seus anjos" (v.5). Esta "confissão" significa que, no dia final, os seus nomes serão citados pelo Senhor Jesus, na chamada final! Eles poderiam estar seguros quanto a isto! E com certeza o Senhor lhes dirá: "Vinde, benditos de meu Pai, entrai na posse do reino, que desde há muito vos está preparado". Vale a pena recordar aqui pelo menos a primeira estrofe e o coro do hino 297, do Hinário Novo cântico:

"Quando lá dos céus descendo,

Para os seus, Jesus voltar,

E o clarim de Deus a todos proclamar,

Que chegou o grande dia

da vitória do meu Rei

Eu por sua imensa graça lá estarei!

Coro:

Quando, enfim, chegar o dia,

Da vitória do meu Rei,

Quando, enfim, chegar o dia,

Pela sua imensa graça lá estarei!"

9. Justamente devido aos símbolos e figuras utilizados por João, o Livro do Apocalipse tem sido de dificílima interpretação, não sendo recomendável a interpretação literal. Há que se estudar cada uma destas figuras e símbolos, à luz do seu contexto bíblico e histórico, para que se possa chegar a uma correta compreensão. Assim, não devemos entender de forma literal que "gafanhotos" (Cap. 9) vão subir do abismo para a terra, ou que "...As cabeças dos cavalos eram como cabeças de leões e de suas bocas saía fogo, fumaça e enxofre" (Cap 9:17); ou ainda que, literalmente, subirá do mar uma "besta", com dez chifres e sete cabeças". Naturalmente, também não devemos imaginar a existência real de qualquer livro ou livros literais. São apenas meios poéticos utilizados e servem para evidenciar a soberania de Deus.

Escrito por: Pr. Edemar V. Silva em 28/01/2001

Bibliografia:

1) O Novo Testamento Interpretado, versículo por versículo, de R. N. Champlin, Ph. D. - Editôra Candeia

2) Explicação Popular do Apocalipse - 3a. Edição - Dr. Aníbal Nora

3) Apocalipse, Introdução e Comentário - George Ladd - Editôra Mundo Cristão

4) Bíblia Sagrada - Almeida, Revista e Atualizada


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